Família Hùndésô
Comunidade Riacho Branco
Território e memória

ComunidadeRiacho Branco

Um território afro-indígena de memória, ancestralidade, resistência e continuidade entre gerações.

Apresentação da Comunidade Riacho Branco

A Comunidade Riacho Branco é formada por 65 famílias afro-indígenas que preservam, há mais de dois séculos, uma trajetória marcada pela resistência, pela ancestralidade e pela profunda conexão com a natureza.

Localizada na Região Serrana dos Quilombos, na zona rural do município de Joaquim Gomes, em Alagoas, a comunidade mantém vivas tradições culturais, espirituais e modos de vida transmitidos entre gerações.

A origem do Riacho Branco

Segundo relatos dos mais velhos, Riacho Branco existe há mais de 200 anos. A família Leodino é lembrada como a primeira a chegar e se estabelecer no território.

De acordo com a memória familiar, um homem chamado João do Santo teria trabalhado abrindo terras junto de um homem conhecido como “Dom Pedro”. Ao final do trabalho, Dom Pedro teria oferecido dinheiro ou um pedaço de terra como pagamento. João do Santo escolheu a terra para criar sua família, e o lugar passou a ser conhecido como Sítio Riacho Branco.

Outra narrativa sobre a origem do nome da comunidade afirma que ele surgiu a partir de uma nascente que brota debaixo de um antigo gameleiro, formando um riacho de águas claras. Dessa imagem teria nascido o nome Riacho Branco.

O gameleiro permanece até hoje como símbolo ancestral da comunidade, reconhecido pelos moradores como a árvore mais antiga do território.

Também há, na comunidade, um antigo pé de orobô, guardado na memória local como parte importante da paisagem e da ancestralidade do lugar.

Cultura popular e memória oral

A cultura popular da comunidade é preservada por meio das histórias, cantos, lembranças e ensinamentos transmitidos oralmente entre gerações.

Uma moradora recorda músicas cantadas por seu marido, inspiradas no gameleiro e na vida do sertão, como:

“Alô, gameleiro pesado...”

“O poema é nordestino...”

“Vaqueiro chamando gado...”

Grande parte das memórias sobre a história local vem dos ensinamentos dos mais velhos, especialmente de Antônio Laurentino, lembrado como um grande contador de histórias da região.

Segundo esses relatos, antigamente o território era “todo mato”, existindo “tocas” ou buracos onde negros antigos se escondiam ou moravam. Também são lembradas figuras conhecidas por apelidos, como “Pé de Espeto”, “Nego Nú”, “Nego Fujão” e “Negro Caboclo”.

Essas histórias permanecem vivas como parte da memória coletiva da comunidade e revelam a importância da tradição oral na preservação da identidade do povo de Riacho Branco.

Os moradores demonstram profundo respeito pelos antigos, reconhecendo neles os guardiões da memória e da história do território.

Identidade, território e modos de vida

Ao longo do tempo, a comunidade construiu sua identidade a partir da união de saberes afrodescendentes e indígenas, fortalecendo laços comunitários e práticas ancestrais de cuidado com a terra.

Atualmente, as famílias vivem principalmente da agricultura e do auxílio de programas do Governo Federal. O cultivo da terra representa não apenas uma fonte de sustento, mas também a preservação de conhecimentos tradicionais relacionados à alimentação, à espiritualidade e à convivência harmoniosa com o meio ambiente.

Riacho Branco está situada em uma região de grande riqueza natural, cercada por serras, matas nativas, nascentes, rios e animais silvestres. O território integra o cenário da Reserva Ecológica de Murici, importante área de preservação ambiental de Alagoas, reconhecida por sua biodiversidade e beleza cênica.

O acesso à comunidade acontece pela BR-101, passando pelo território indígena Wassu Cocal e pelo Sítio Canto, até chegar a Riacho Branco. São aproximadamente 15 quilômetros de estrada de barro a partir da rodovia e cerca de 30 quilômetros da cidade de Joaquim Gomes.

Durante o percurso, o visitante atravessa paisagens exuberantes, marcadas por vegetação abundante, nascentes e histórias que revelam a riqueza cultural da região.

Espiritualidade e fortalecimento comunitário

No coração da comunidade está o Hùnkpámè Ayónó Hùndésô, terreiro de Candomblé do culto Fonbe, da tradição Jeje Mahi, que também atua como Organização da Sociedade Civil de caráter social, cultural e ancestral.

Por meio do Ponto de Cultura Família Hùndésô, são desenvolvidas ações voltadas ao fortalecimento comunitário, à promoção da cultura afro-indígena e à valorização dos saberes ancestrais.

Entre as iniciativas desenvolvidas, destaca-se o afroturismo comunitário, que promove experiências de imersão cultural, espiritual e ecológica. Os visitantes têm a oportunidade de conhecer sabores, saberes e tradições locais, além de adquirir produtos naturais produzidos pelas famílias da comunidade, como frutas, verduras, peixes e alimentos cultivados de forma tradicional.

Outro importante atrativo é a experiência ancestral dos Caminhos dos Voduns, uma trilha ecológica e sagrada que conecta natureza, espiritualidade e memória ancestral. O percurso proporciona aos visitantes uma vivência de conexão com a mata, com os elementos sagrados da tradição Jeje Mahi e com a história preservada pela comunidade.

Um território de memória e resistência

Mais do que um território, Riacho Branco representa um espaço de memória, resistência e preservação cultural.

A comunidade segue fortalecendo suas raízes, valorizando sua ancestralidade e construindo caminhos de autonomia, sustentabilidade e reconhecimento para as futuras gerações.

Riacho Branco não é apenas um lugar de moradia. É um território de memória, família e continuidade entre gerações.

As informações históricas, culturais e territoriais da comunidade estão guardadas e protegidas no acervo da instituição.

Imagens

Galeria de fotos

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