Abian é aquele que precisa nascer de novo.
Ser abian é viver a emoção de sentir a energia do seu ancestral, aprender a identificá-la e, aos poucos, perceber como ela vai se moldando à sua vida — e como você também vai se moldando a ela.
É nesse período que o ancestral inicia seu processo de desenvolvimento junto ao abian, transmitindo muitas de suas características. Também é nesse momento que o abian começa a construir uma relação de afinidade com seu ancestral, aprendendo a ouvi-lo de uma forma íntima e profunda. Afinal, o ancestral não se comunica melhor com ninguém além de seu próprio filho, pois é ele quem carrega essa energia sublime, única e sagrada.
Entendendo melhor o abian
Abian é a posição inicial na hierarquia da religião. Seu significado está relacionado àquele que começa um novo caminho. É a pessoa que inicia um novo aprendizado e uma nova vida espiritual, passando por um período de aproximação, observação e entendimento sobre o caminho religioso que deseja seguir.
Dessa forma, o abian pode ser compreendido como parte de um rito de passagem presente no cotidiano das religiões de matriz africana. Esse processo é marcado por cerimônias que representam, dentro do contexto religioso, a progressiva aceitação do iniciado e sua participação na comunidade em que está inserido, considerando tanto seu valor individual quanto o coletivo.
Tudo começa pela consulta oracular, quando o ancestral da casa de axé determina o ritual do Tásen, o ato de alimentar a cabeça. Esse ritual desperta o Tá, a cabeça, por meio do sopro da vida, para que a pessoa passe a enxergar a existência por outro ângulo e comece a fazer parte do dia a dia da casa de axé.
À medida que o abian se aprofunda em sua vivência religiosa, alguns aspectos de sua personalidade começam a se sobressair. Seu ancestral passa a agir em sua vida, trazendo uma nova percepção sobre o modo de pensar, sentir e viver.
O processo de iniciação conduz à compreensão, ao conhecimento e à prática dentro de seu ciclo de passagem. Ele promove uma mudança de status e, ao mesmo tempo, trabalha a personalidade, a desconstrução de padrões pré-estabelecidos e a construção de novos valores que irão orientar a conduta e a existência do indivíduo.
Dessa maneira, o rito de passagem marca a culminância de um processo de iniciação. Trata-se de uma jornada iniciática em que o sujeito passa por uma transformação individual e também contribui para a reconstrução da sociedade, como forma de reparar prejuízos historicamente causados a populações excluídas dos processos de desenvolvimento educacional, cultural, social e econômico.
A vivência na casa de axé
A vivência do abian na casa de axé é observada pelos mais velhos, especialmente em seu comportamento, disciplina, verdade com seus sentimentos e relação com o ancestral da casa que frequenta.
Também se observa se a pessoa está despojada de vaidades ou se seu objetivo é apenas ser iniciada dentro do culto. O tempo de iniciação pode levar dias, meses ou até anos, pois acima da vontade individual está a vontade do ancestral.
O abian precisa aprender a respeitar o tempo do seu ancestral. Com o amadurecimento da caminhada, saberá quando for escolhido para ser iniciado ou iniciada nos mistérios do culto.
O que o abian precisa entender
- A formação das casas de matriz africana no Brasil foi constituída por reis, rainhas e filhos da Mãe África. Por isso, tradição, hierarquia, memória e respeito são fundamentos essenciais da caminhada religiosa.
- A idade é considerada um fator importante na aquisição de conhecimento. Ela é sinônimo de autoridade, força e experiência. Idade é posto e deve ser respeitada.
- Quando uma pessoa mais velha se dispõe a falar, recomenda-se abaixar-se, ouvir com atenção, paciência e sem interrupções.
- O abian possui funções na casa relacionadas à limpeza, manutenção e demais atividades designadas pelo sacerdote ou sacerdotisa. Essas funções devem ser acolhidas com responsabilidade, humildade e disciplina.
- A ética e a disciplina são fundamentais dentro da casa de axé.
- Não existe ninguém que já nasça feito no culto.
- Ebó e Bori não são feitura; são cuidados e confortos espirituais.
- Para se tornar um bom sacerdote ou uma boa sacerdotisa, é necessário passar pelo caminho do abian, ser iniciado como hunsì, muzenza ou iaô, e cumprir o ciclo de sete anos de iniciação nos mistérios do culto.
- Não se deve perder tempo com pessoas que não contribuem para a vida espiritual e mental.
- É preciso estar na casa de axé para aprender.
- Não existe “qualidade de santo”; existem caminhos.
- Abian não tem qualidade de santo.
- O abian deve usar roupas de ração brancas e o fio de conta do seu ancestral.
- É necessário compreender que o abian não se torna sacerdote ou sacerdotisa sem antes concluir seu ciclo de sete anos como iniciado ou iniciada.
- O abian pode ser ogan ou ekedi, sim. Para ser um bom ogan ou uma boa ekedi, antes é preciso passar pelo aprendizado do abian.
- O abian não deve usar adereços de iaô.
- O abian não se senta na mesma altura de quem já é iniciado nos mistérios.
- É preciso esperar os mais velhos se servirem primeiro.
- A simplicidade oferecida na casa de axé será sua riqueza no futuro.
- O abian está em processo de formação para se tornar uma pessoa melhor.
- É importante estar em uma casa de axé tradicional, que tenha história, fundamento, respeito e compromisso com a ancestralidade.
Um novo caminho espiritual e social
Assim é o abian: aquele que inicia seu processo de rito de passagem para uma nova vida religiosa e social. Seu caminho representa uma ação afirmativa de reconstrução do ser, de educação racial, de fortalecimento espiritual e de compromisso com uma sociedade onde prevaleçam a equidade, o respeito e a dignidade entre gênero, raça, cor e sexualidade.
Texto: Doté Elias, sacerdote e presidente do Hùnkpámè Hùndésô.