São Paulo (SP) — O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo sediou, nos dias 25 e 26 de setembro, o 3º Encontro da Rede de Acervos Afro-brasileiros, iniciativa que reúne instituições, coletivos, comunidades tradicionais e agentes culturais envolvidos na preservação, documentação, pesquisa e difusão da memória afro-brasileira.
Criada a partir de uma proposta da Associação Museu Afro Brasil, apresentada em outubro de 2022, a Rede surgiu em resposta à solicitação do Sistema Estadual de Museus de São Paulo (SISEM-SP) para que o Museu Afro Brasil integrasse uma das redes temáticas de museus vinculadas ao Programa Conexões Museus SP.
Lançada oficialmente em março de 2023, a Rede de Acervos Afro-brasileiros estabeleceu entre seus principais compromissos o mapeamento e a divulgação de acervos, coleções e bens culturais afro-brasileiros existentes em diferentes regiões do país.
A iniciativa busca contribuir para a preservação e difusão de histórias, memórias e conhecimentos relacionados às experiências da população negra no Brasil, além de fortalecer iniciativas e seus agentes, estimular pesquisas e ampliar conexões, parcerias e ações de visibilidade e reconhecimento.
Rede reúne diferentes espaços de memória afro-brasileira
Integram a Rede museus, arquivos, bibliotecas, povos e comunidades tradicionais de terreiro e de matriz africana, quilombos, pontos de memória, sítios de memória, pontos de cultura e coleções particulares que salvaguardam, documentam, produzem ou fazem circular bens culturais materiais e imateriais relacionados às experiências e contribuições das populações negras para a história, a cultura e as artes brasileiras.
O trabalho articulado permite aproximar experiências de diferentes territórios, compartilhar conhecimentos e fortalecer iniciativas que já desenvolvem ações de preservação da memória e do patrimônio afro-brasileiro.
“O trabalho em rede permite aproximar experiências, compartilhar caminhos e fortalecer iniciativas que já acontecem em diferentes lugares. O encontro cria esse espaço de diálogo e de construção conjunta, fundamental para que esses acervos estejam cada vez mais conectados e presentes”, afirmou Jandaraci Araújo, diretora-executiva da Associação Museu Afro Brasil.
Debate sobre políticas públicas antirracistas
A programação do encontro contou com o debate “O papel das Redes no fortalecimento de ações e políticas públicas antirracistas”, reunindo representantes de diferentes instituições e iniciativas ligadas à preservação da memória negra.
Participaram da atividade Luciana Carvalho, vice-presidente do Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus (ICOM Brasil) e coordenadora do Comitê Permanente Antirracista da instituição; Janaina Melo, representante do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN); e Lucas Ribeiro, fundador e articulador da Rede Museologia Kilombola (RMK).
As atividades foram realizadas no espaço cultural do Museu, incluindo a programação no Teatro do Museu Ruth de Souza, com debates e diálogos sobre memória, museologia, patrimônio cultural, racismo e políticas públicas.
Exposição “Nzo – Memórias Afro-brasileiras”
Durante o encontro também foi inaugurada, no sábado (26), às 10h15, a exposição “Nzo – Memórias Afro-brasileiras”, primeira mostra organizada pela Rede de Acervos Afro-brasileiros.
Com visita guiada, a exposição reúne 40 iniciativas de diferentes regiões do país dedicadas à salvaguarda de bens culturais afro-brasileiros. A curadoria é compartilhada pela própria Rede, valorizando a diversidade de experiências e territórios representados.
A exposição apresenta diferentes formas de preservação da memória negra e evidencia a importância de iniciativas comunitárias, institucionais e independentes para a manutenção do patrimônio cultural afro-brasileiro.
Um convite à preservação da memória negra
A Rede de Acervos Afro-brasileiros também se apresenta como um espaço aberto à participação de iniciativas que atuam na preservação da memória e do patrimônio afro-brasileiro. Acesse aqui.
A proposta é fortalecer uma rede formada por pessoas e organizações que enfrentam o apagamento histórico e trabalham pela valorização das histórias, culturas e contribuições da população negra no Brasil.
O projeto é compreendido como um organismo vivo e em constante construção, aberto à inclusão de novos acervos, comunidades, instituições e iniciativas de diferentes regiões do país.
Família Hùndésô integra articulação nacional da Rede
Entre os representantes que integram o núcleo de articulação da Rede está Doté Elias, coordenador do Ponto de Cultura Família Hùndésô, de Alagoas, representando o segmento de Terreiros.
A participação da Família Hùndésô amplia a presença das comunidades tradicionais de matriz africana e dos pontos de cultura alagoanos em uma articulação nacional dedicada à preservação da memória, da ancestralidade e do patrimônio cultural afro-brasileiro.
A presença de um terreiro e de um Ponto de Cultura na estrutura de articulação da Rede também evidencia a importância dos espaços comunitários na salvaguarda de saberes, práticas culturais, objetos, documentos, narrativas e memórias transmitidas entre gerações.
Núcleo de articulação geral
A Rede de Acervos Afro-brasileiros possui uma articulação nacional formada por representantes de diferentes segmentos:
- Articulação Geral: Janderson Brasil Paiva, do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (SP);
- Arquivo: Aline Carvalho, representante do Terreiro Ilê Axé Inginoquê Omorossí;
- Bibliotecas: Ionara Lourenço, Casa Sueli Caneiro, São Paulo, SP;
- Coleções: Maria Buzanovsky. Acervo Maria Buzanovsky. Rio de Janeiro;
- Museus: Talitha Dester, museóloga da Casa Museu Ema Klabin (SP);
- Pontos de Cultura: Oyábunmi Silvana Santana, Memorial Lélia Gonzalez de Oxum- Ilê da Oxum Apará - Itaguaí-RJ;
- Pontos de Memória: Vitú Medeiros de Souza, da museologia e coordenação do Nagôgrafia Museu dos Caminhos Negros (MG);
- Terreiros: Doté Elias, coordenador do Ponto de Cultura Família Hùndésô (AL);
- Quilombos: Letícia Ester de França, Casa de Memória Quilombo São Pedro, Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira-SP/PR;
- Espaços de Memória: Romildo José dos Santos - SOWETO organização Negra;
- Museu Digital: Daniela Moreira. Projeto Ewé Lati Wòsán: Folha para curar Museu Digital:Salvador, Bahia.
Representantes Regional da Rede de Arcevos Afro-brasileiros
Norte -Nordeste
Casa Afropoty Sociedade Afrocentrada – CASA: Stéphanie Campos Paiva Moreira – Natal, Rio Grande do Norte
Museu do Ceará: Yasmine Martins Barbosa – Fortaleza, Ceará
Rede Museologia Kilombola: Silvia Raquel de Souza Pantoja – Belém, Pará
Suplentes:
Ilê Axé Inginoquê Omorossí – IAIO: Aline Carvalho
Museu Pai Dadá: Whaha Macy – Mata de São João, Bahia
Sul-Sudeste
CENPRE - Centro de Preservação da Memória Negra de Juiz de Fora e Região: Maria Luiza – Juiz de Fora, Minas Gerais
Museu Itamar Assumpção: Melissa de Assis Batista – São Paulo, SP
A composição reúne diferentes campos da preservação cultural e busca fortalecer a participação de territórios, comunidades tradicionais, instituições culturais e iniciativas independentes na construção de uma política de memória afro-brasileira.
Rede prevê expansão para outras regiões
A organização da Rede prevê a ampliação do mapeamento de iniciativas afro-brasileiras em diferentes territórios do país.
Para 2027, está prevista a ampliação do processo por meio de mapeamentos regionais, com o objetivo de incorporar novas iniciativas à Rede.
Também está previsto para 21 a 24 de abril de 2027, em Natal (RN), o Encontro Norte e Nordeste da Rede de Acervos Afro-brasileiros, fortalecendo a articulação entre iniciativas dessas duas regiões.
Memória, ancestralidade e resistência
O 3º Encontro da Rede de Acervos Afro-brasileiros reforçou a importância da articulação entre museus, comunidades tradicionais, quilombos, terreiros, pontos de cultura, arquivos, bibliotecas e espaços de memória para garantir que histórias e conhecimentos relacionados à população negra sejam preservados e reconhecidos.
Para iniciativas como o Ponto de Cultura Família Hùndésô, a participação nesse processo representa também a valorização dos saberes ancestrais e das experiências dos povos de terreiro e das comunidades tradicionais de Alagoas.
A construção de redes nacionais permite que essas experiências deixem de permanecer isoladas e passem a integrar uma articulação mais ampla em defesa da memória, da cultura e do patrimônio afro-brasileiro.
No site do Museu da Pessoa você vai encontrar um pouco da nossa história, na Coleção Nso: Memórias Afro-brasileiras, acesse aqui.
Cartilha Museus Antirracistas
Durante a programação também foi divulgada a Cartilha Museus Antirracistas, publicação do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), voltada à reflexão e ao fortalecimento de práticas antirracistas no campo dos museus e da preservação da memória.
Para adquirir ou acessar a publicação digital, consulte o canal oficial do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, acesse aqui.